terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Fun Home - Uma tragicomédia em família



Ele tirou da bolsa e deixou em cima da mesa da cozinha. Era Fun Home.

Assim, sem maiores explicações, enrolações e blábláblás. Indicação de dois grandes amigos, ambos conhecidos pelo vício incurável por celulose. Pra mim aquilo devia ser entendido no imperativo: “Leia isso”. Acrescentado de: “Agora”. E li. Em pouquíssimas horas, perto da janela do quarto porque o calor era sufocante. Sem pausa pra café, água, cerveja ou banheiro.

Feito traça consumi o livro todo e sem culpa. Sim, eu sou viciada em celulose desde os tempos em que a mama me alimentava com as coleções do Círculo do Livro. Admito que sou uma junkie e não quero ir pra uma rehab. No, no, no.

Finda a leitura, o descontrole que aterrorizou os vizinhos: pelo amor de Crumb, Guido Crepax, Milo Manara!!!! Pelo amor, ódio e remédios tarja preta do Lourenço Mutarelli!!! Alison Bechdel já está lá no meu Olimpo de gente que se dedica à arte de contar histórias quadro a quadro e fazendo bom uso de todas as árvores que viraram papel. E tem gente que ainda afirma que HQ é sub-literatura. Perdoai, Harvey Pekar, eles não sabem o que lêem...



Caros leitores desse brógue entregue a bandalha toda, depois de um parágrafo-rompante vou colocar em algumas várias linhas por que ler Fun Home. Quem chegar no final leve a mão em direção ao teclado e deixe um comentário de "acabei, fessora!":

- Um artista se reconhece pelo tamanho da fome que tem. Alison Bechdel tem muita, pelo visto. Moral, relação com pai-fantasma, sexualidade, boa literatura e uma sinceridade desavergonhada juntas não são temas de gente que quer pouca coisa da vida;
- A história fala de um fantasma. Nada de “buh” e histórias de terror. Muito embora o pai da personagem, o defunto em questão, tenha sido um diretor de funerária e a própria autora compara seu cotidiano familiar com a Família Adams. Temos no Ocidente um problema seriíssimo com a morte, especialmente aquelas que acontecem repentinamente. Nascer, trepar, reproduzir aos zilhões são etapas naturais da vida besta. A morte, ah, nem se atreva a falar da dona...;
- Pois bem, a partir da morte do pai (suicídio?), ela disseca não só a relação com o velho mas passa a entender a melhor a sua própria sexualidade e, quem diria, a do seu pai, um homossexual trancado a sete chaves no armário de mogno que ele deve ter reformado e cuidado com esmero;
- Há inúmeras referências literárias e nenhuma delas colocadas a esmo – Collette, Anaïs Nin, Camus, Joyce. Mesmo quando não citadas textualmente, dá pra perceber que ali há um Proust saboreando um chá e remexendo em tudo podemos chamar de memória: lembrança e esquecimento;
- Não pensem que com toda essa literatura cabeçuda e com temas cabeludos o livro seja um convite ao suicídio. Não é. Se o subtítulo fala em "tragicomédia familiar" acreditem. Não é propaganda enganosa ou conversa pra leitor dormir e ter pesadelos;
- O desenho é simples. Vocês podem achar que eu gosto de arabescos e firulas. Ledo engano. Eu sempre gostei mais das coisas quando simples. Alison também tem o mesmo ponto de vista, já que ela praticamente viveu em um museu, em um brechó de antiguidades a la lojas da São João. O simples nunca é lindo apenas. E ponto final.



OBS: Não devo deixar de agradecer a dupla sertanojo Alan e Alexandrinho pela dica. Espero que vocês, caros leitores brogueiros, sigam o meu conselho imperativo: Leiam. Agora.

4 comentários:

alexandrelinares disse...

Massa o texto Thais!
E digo obrigado pela foto. Até pareço bonito.
Um forte abraço,
A.L.

Alan Livan Bandalheira disse...

Cabei fessora. Seu texto está lindíssimo!
Pois é Dona Thatoca. Esse livro é mais do que fodástico! O Alê Linares me contou que ele ganhou o prêmio de Melhor Livro em 2006 pela revista Time. Melhor Livro, não melhor revista em quadrinho.
Espero que a galera que dá uma espiadinmha nesse blog corra atrás desse livro!
È fundamental!

su disse...

Muito boa resenha... Faz jus ao livro, interessante e intrigante... A foto no final, desses dois malucos, maravilhosos malucos, dá um ar meio psicodélico ao conjunto da obra...
Bjs...

Marcius Siddartha disse...

Esse blog já foi melhor frequentado...rs Alexandrino????rs